Sunday, March 17, 2013

Sobre os que se foram

Quem vai, nunca vai totalmente, pois sempre fica um pouco na gente. Às vezes esse pouco é pouco, às vezes é muito, às vezes é demais. Porém nunca é o suficiente pois essa ausência, ainda que seja presença, nunca se tornará presente.

Tuesday, January 29, 2013

O caso de Santa Maria é um retrato do Brasil, infelizmente.



Incêndio na Boate Kiss, em Santa Maria, no Rio Grande do Sul. Incidente lamentável e de vasta repercussão. Esse evento me fez pensar sobre nós e o Brasil. Como, de certa forma, a maioria de nós é conivente com essa situação. Agora, contudo, para muitos é fácil gritar que a boate estava irregular, que a gerência falhou, que o poder público foi omisso.
Tudo isso é verdade, se há vários responsáveis, há apenas um culpado...
Artista assassino em Santa Maria (RS)!!! Independente da possível falta de estrutura da boate, independente do possível despreparo dos funcionários, independente da possível falha da fiscalização pública, etc...

CARALHO!!! QUE IDIOTA É CAPAZ DE DISPARAR UM SINALIZADOR DENTRO DE UMA BOATE!!!
Nossa segurança (pública e/ou privada) está nas mãos de gente despreparada ou inapropriada. Percebe-se que houve falha na reação ao incidente. O que chama a atenção é o número e a juventude, mas tb o fato de ter sido estúpido. Agora, se não tivesse morrido ninguém, com certeza teria gente dizendo: "ah, o pessoal tá reclamando pq ficou espremido. iam sair sem pagar? o dono e os seguranças estavam certos".
Tudo provocado por um IMBECIL. As falhas não teriam aparecido se não tivesse ocorrido a MERDA que ele fez. No Brasil só morrendo gente para se gerar alguma reação. As secretarias se manifestarão, os deputados se indignarão, as empresas se explicarão, os parentes e amigos se lastimarão e chorarão.

A indignação atual é temporária: se o artista soltasse o sinalizador e um segurança o impedisse, todo mundo reclamaria, que o cara tava querendo aparecer estragando a festa, etc.; se o gerente proibisse, seria a mesma coisa, e por aí vai. O fato da casa ter permitido - se permitiu, se ligou, talvez a gerência não estivesse nem aí, nem tenha se lembrado do teto inflamável, etc. - não justifica a atitude (ele poderia ter se queimado ou ter acertado alguém).
Talvez ele já tenha feito isso antes em algum espaço aberto - já estaria errado, pois (pelo que sei) sinalizador é pra ser usado no mar. Não estou jogando a culpa toda nele, só que ele foi o desencadeador. Se houvesse estrutura, equipe preparada, fiscalização, etc, nada ou pouco teria acontecido, mas provavelmente haveria alguns feridos - 2, 4 ou 5 não são menos importantes do que 245.


Uma amiga, que atualmente mora na Alemanha resumiu isso de forma brilhante.
"GRANDE problema na cultura brasileira: fazer a coisa certa é fora de moda. Aliás, mais que isso: é ridículo. Neguinho vem logo malhando, dizendo que o sujeito nao faz sexo há muito tempo, e que tem algum trauma de infância. Essa comocao toda é agora, porque acabou de acontecer. Mas quando a cabeca esfria, a situacao sai das manchetes, e é hora de realmente agir preventivamente, vem o discurso de "esse cara é um chatonildo, um babaca..." "


Discutimos isso agora, porém, se não tivesse ocorrido problema algum, teríamos gente comentando "CARALHO!!! O CARA DISPAROI UM SINALIZADOR DENTRO DE UMA BOATE!!! UHUL!!!"
Há gente que, com certeza, teria achado o máximo estar em uma boate onde o vocalista de uma banda soltasse um sinalizador e que está lamentando o incidente. Mas, enfim, se eu estivesse lá, fosse o gerente responsável naquela noite, e tivesse impedido o cantor de usar o sinalizador, hoje estariam todos (muitos dos quais morreram, mas que estariam vivos) postando aqui como eu era um babaca, um escroto, como atrapalhei a festa, etc.
O problema é q tudo, TUDO, estava errado. E está. E estará. Afinal, nos é conveniente. Até a hora em que não é. Hoje a noite o Bial falará sobre isso no BBB, os brothers chorarão. Haverá o indicado da casa, Terça tem eliminação e ninguém lembrará mais.

Nada justifica as falhas (do artista, da casa, da segurança, da fiscalização, etc.), porém, tudo isso aconteceu em boa parte por causa de nós mesmos. Nós achamos desnecessário e chato ser revistado na entrada, nós reclamamos se não pudermos colocar nossa cadeira do lado da porta de emergência, etc.
Uma tragédia anunciada, como a próxima que ocorrerá em um barco superlotado, em um terraço cheio de jovens bêbados, em uma esquina com um motorista distraído por um choppinho, etc.
É muito obaoba, muita zoação e pouca preocupação. Quando dá certo, ok, mas e quando não dá?
Quando não dá? Dá isso:

http://g1.globo.com/rs/rio-grande-do-sul/noticia/2013/01/numero-de-mortos-em-incendio-em-santa-maria-chega-180-diz-policia.html

Ah, ouvi um repórter da BandNews dizer que havia jovens entre 17 e 25 anos entre os mortos e feridos. Ué, mas a festa não era para maiores de 18 anos? Os pais sabiam onde seus filhos de 17 anos estavam? Os jovens de 17 anos informaram seus pais que estavam em uma boate? Aposto que há pais agora (AGORA) preocupados com os filhos que disseram que íam à boate ("ah, que mal tem deixar ir, tem 17 anos, daqui a um mês tem 18 anos, deixa se divertir"), ou que disseram que íam para casa de amigos ("queria falar com X? como assim não está aí? mas disse que ia para aí!!! Como assim eu que tenho que saber dos meus filhos!? Sou um ótimo pai, vá a merda!!!")
Falo daqueles pais que acham tudo lindo, maravilhoso, etc., enquanto não der problema, que não dão limites, que acham certo "fazer merda" ("ah, é coisa da idade, deixa pra lá"), esse tipo de pai, os quais não se preocupam em cuidar, controlar (por que não? controlar não é palavrão) e proteger.

É claro que um filho pode mentir, pode conseguir que amigas mintam, isso já está fora do seu alcance; mas ao ter informado, ligado, cobrado, verificado, procurado saber, etc. o pai terá a segurança de que fez o q pode. Não existe controle total, proteção total. Isso é impossível. Manter filho em casa é uma falsa segurança, pois pode estar aprontando pela net tb, pelo cel, etc. O que é preciso é q os pais se conscientizem de que filho não é apenas "ó que linda minha filhinha, como tá bonito meu filhão", mas é uma responsabilidade.
O certo seria os filhos se conscientizarem de suas responsabilidades tb, o que é mais difícil, mas se os pais conseguiram dar "liberdade com responsabilidade", não há (em princípio) motivo para se preocupar.

Sunday, April 08, 2012

Ciências

Interessante pensar como Newton, Descartes, etc., tinham uma formação que integrava matemática, filosofia, história, etc. e foram fundamentais na constituição do saber matemático atual.
É interessante como a constituição do paradigma cartesiano-newtoniano, que fundamentou uma concepção mecanicista do mundo, conseguiu apagar seus fundamentos humanísticos.
Embora as chamadas ciências exatas estejam longe da exatidão, como propalam, elas conseguiram se construir como tais - coisa que muitos físicos e químicos discordariam e estão abertos para pensar de modo mais filosófico e relativo suas questões (como os químicos já fizeram e como os físicos fazem hoje).
Em função desse paradigma cartesiano-newtoniano, que acabou levando a uma valorização das ditas ciências exatas e a uma subsequente e progressiva visão das mesmas como sendo mais complexas do que as outras.
Isso acaba levando a um grau de importância maior dado a elas, o que faz com que as demais áreas venham a ser vistas como acessórios. Interessante pensar que, até o século XIX, principalmente na Alemanha, a formação de diferentes carreiras, tinham uma forte carga de humanidades, sem que fossem vistas como acessórias, mas sim como essenciais.
É claro que há enormes falhas nas áreas de humanas, fruto da sua subjetividade e do que é visto como defeito pelas autoproclamadas ciências exatas: o fato de serem subjetivas e de interferirem/sofrerem interferência do real concreto; coisa que também ocorre nas tradicionalmente conhecidas como "hard sciences" - o que ocorre é que, muitas vezes, o componente humano é disfarçado ou desaparece na história.
Assim vemos porque não há interesse em se mudar tal situação: se áreas como filosofia, história e sociologia se debruçam sobre as "ciências exatas", seus elementos filosóficos, seus processos históricos e sua estrutura sociológica serão revelados ou discutidos. O que isso significaria? Que são ciências com as mesmas qualidades e defeitos que as demais, logo nem melhores, nem piores.
Revelado isso, porque manter essa diferença, essa hegemonia, visível inclusive nas distribuições de carga horária? Essa pergunta, não se interessa fazer, só quem a faz são a filosofia, história e sociologia - por isso são tratadas como adereços.

Monday, March 12, 2012

Jogar a toalha




Estou cansado. Tenho uma visão arcaica de mundo. Uma visão baseada na ideia de compromisso e dedicação. Sou professor federal, cumpro uma carga horária maior que a de alguns colegas, por considerar que seja minha obrigação - e, na verdade, é.

Desenvolvi um projeto de pesquisa de um ano aqui na escola. Nesse período, sofri um acidente de carro no qual fiquei com o braço direito quebrado. Isso bagunçou minha vida. Não consegui finalizar o projeto, o que me entristeceu e me envergonha até hoje. Isso me inviabiliza começar outros.

Agora, vi colegas tendo projetos aprovados e pensei que, de certa forma, pequei o caminho das pedras e agora, que a situação está melhor, mais fácil, outros seguem o caminho.

Tentei desenvolver outro projeto ano passado, um grupo de estudos. Não foi um fracasso total, mas foi bem desproporcional ao investimento.

Pretendia começar um projeto esse ano que envolveria alunos que gostam de desenho, mas depois de 15 dias, ainda não tive resposta dos mesmos. Como não quero passar vergonha de novo, pretendo falar com o outro professor envolvido para cancelar o projeto.

Um amigo me disse uma vez que eu tinha que "cagar e andar", "ligar o foda-se". Organizo palestras, já organizei seminários, já fiz visitas técnicas a museus, etc. As dificuldades encontradas para continuar com essas atividades, que ocupam meu tempo, me desanimam.
Ano passado, planejei 2 visitas (Paraty e Vassouras), que foram canceladas na última hora, enquanto outros conseguiram realizar as deles.

Cansei. Desanimei. Desiludi. Sinto-me mal, pois me sentia bem por ser o correto, o último correto, digamos assim. Isso me dava um certo orgulho. Porém, o sucesso dos outros destaca o meu fracasso. Isso talvez tenha sido a gota d'água.

Sempre me senti igual ao Peter Parker, seguindo um ideal como o Homem Aranha. Cansei um pouco de ser o herói, desisti, pelo menos por enquanto.

Monday, February 20, 2012

Sambinha dos Cariocas no Carnaval 2012 - alguns, só uns poucos, pouquíssimos...

Iaiá

Minha índia não sabe o que eu sei

Em quanta sujeira na rua tropecei

Quando eu contar, Iaiá, você vai se pasmar

Quando eu contar, Iaiá, você vai se pasmar.


Iaiá

Minha cunhada não sabe o que eu sei

Quanta fumaça de cigarro na cara dos outros eu joguei

Quando eu contar, Iaiá, você vai se pasmar

Quando eu contar, Iaiá, você vai se pasmar.


Iaiá

Minha preta não sabe o que eu sei

O quanto bebi, o quanto esbarrei

Quando eu contar, Iaiá, você vai se pasmar

Quando eu contar, Iaiá, você vai se pasmar.


Iaiá

Minha avó não sabe o que eu sei

Quantas brigas desnecessárias arrumei

Quando eu contar, Iaiá, você vai se pasmar

Quando eu contar, Iaiá, você vai se pasmar.


Iaiá

Minha loira não sabe o que eu sei

Quanto energético e vodka entornei

Quando eu contar, Iaiá, você vai se pasmar

Quando eu contar, Iaiá, você vai se pasmar.



Iaiá

Minha mãe não sabe o que eu sei

Quantos turistas com prostitutas encontrei

Quando eu contar, Iaiá, você vai se pasmar

Quando eu contar, Iaiá, você vai se pasmar.



Iaiá

Minha morena não sabe o que eu sei

Quanto xixi vi nas paredes onde andei

Quando eu contar, Iaiá, você vai se pasmar

Quando eu contar, Iaiá, você vai se pasmar.



Iaiá

Minha prima não sabe o que eu sei

De quantos motoristas bêbados escapei

Quando eu contar, Iaiá, você vai se pasmar

Quando eu contar, Iaiá, você vai se pasmar.



Iaiá

Minha ruiva não sabe o que eu sei

Quantas encoxadas eu dei

Quando eu contar, Iaiá, você vai se pasmar

Quando eu contar, Iaiá, você vai se pasmar.



Iaiá

Minha irmã não sabe o que eu sei

Quantos pivetes me assaltaram eu nem sei

Quando eu contar, Iaiá, você vai se pasmar

Quando eu contar, Iaiá, você vai se pasmar.


Iaiá

Minha mulata não sabe o que eu sei

Quantas mulheres desconhecidas eu beijei

Quando eu contar, Iaiá, você vai se pasmar

Quando eu contar, Iaiá, você vai se pasmar.

Thursday, October 06, 2011

Terminando

Ano terminando.
Muitas mudanças, muitos eventos, muitas conquistas e avanços.
Porém, as coisas ainda parecem meio sem sentido. Sinto falta de companhia humana.
Colegas são gente, alunos são gente, dona Rosangela é gente, mas não é a isso que me refiro.
Queria companhia minha, de alguém que queira estar comigo. Contudo, descobri que não sou tão boa companhia quanto pensei que era.
Frio no dia-a-dia, distante em vários momentos, cruel às vezes.
O tempo corre... contra mim. Será que ainda devo ter esperanças?
Esperança de esperança:
http://www.youtube.com/watch?v=eAWvNPr6r7k&feature=related

Monday, June 06, 2011

12 meses depois...



Há um ano atrás eu sofria o acidente de carro no qual meu braço direito foi quebrado.
Lembro-me de tudo claramente. Em nenhum momento achei que ia morrer, mas pensei: "que merda, vai bater." Na mesma hora senti meu corpo ir pra frente e meu braço cair.
Começou um longo processo... Internação, raio-x, mesa de cirurgia, quarto, alta.
Um mês na casa de Laísa com o braço engessado, com a possibilidade de ainda ser operado. Ela foi uma heroína, suporto meu medo, minha tristeza, meu choro, minha cara de emburrado. Não fez mais e melhor porque não sabia como fazer mais e nem como fazer melhor, fez o máximo que podia.
Esse acidente mudou algo dentro de mim. Tornou-me mais mortal. Senti ali o peso da minha mortalidade, bem como senti que meu corpo nunca mais seria o mesmo. Esse braço sempre me assombra como uma entidade própria, que tem caracteristicas diferentes do outro e do resto.
Tornei-me mais disperso depois do acidente, mais temeroso, mais audacioso também. Uma mistura de características fundidas a partir de uma batida de carro.

Queria poder voltar a ser quem eu era antes.